Ontem, último domingo de campanha, oito da manhã. Antes da primeira agenda do dia, parei na padaria de sempre para o meu ritual: misto-quente com ovo mexido, café e dez minutos de silêncio antes de entrar na barulheira de carro de som, buzina de carreata e fogos de artifício. Na mesa da frente estava um candidato a deputado, com santinho na mão e a disposição de quem sabe que faltam sete dias. Na mesa ao lado, uma família que tinha acabado de participar de uma corrida de rua tomava café com a fome honesta de quem deixou tudo no asfalto.
O candidato levantou, foi até eles e abriu com a fórmula clássica: se o senhor ainda não tiver candidato, eu sou candidato. Seguiu o roteiro com número, partido e promessa. O pai ouviu com educação, pensou um pouco e devolveu a pergunta mais sincera que escutei nesta campanha: "Ué, mas a eleição é quando?". Domingo que vem, respondeu o candidato. O homem riu, incrédulo: "Impossível. Votei semana passada pra prefeito."
O primeiro turno está marcado para 4 de outubro, e a eleição de prefeito que aquele eleitor lembrava como coisa recente aconteceu em outubro de 2024. Ele estava vivendo no calendário dele, que é o calendário da maior parte do país. E esse calendário diz que a eleição começa hoje.
Quem trabalha com comunicação política vive em outro fuso horário. Para nós, a campanha oficial começou em agosto e a pré-campanha muito antes disso. Cada semana tem pesquisa nova, debate e mudança de rota. Toda semana me reúno com a minha equipe para discutir a programação de posts, passamos quarenta minutos debatendo o corte de um vídeo, acompanhamos o engajamento do adversário post a post, e eu saio dessas reuniões convencido de que o Brasil inteiro está prestando atenção. Eu chamo isso de calendário do comitê. Do outro lado existe o calendário do misto-quente, o de quem tem boleto, filho e treino de corrida no domingo, e que só abre a porta para a política quando ela bate com força, geralmente na última semana. O erro mais comum do meu trabalho é confundir um com o outro.
Os números confirmam o que a mesa do lado mostrou, e ficam mais eloquentes quando a disputa sai do governo e vai para o Legislativo. No Rio, o Paraná Pesquisas ouviu 1.600 eleitores entre 20 e 22 de setembro, com margem de erro de 2,5 pontos: a onze dias da votação, 48,1% ainda estavam incertos sobre o voto para governador, e para o Senado a indefinição subia para 68,6% de gente que não sabe ou não opinou.
O economista americano Anthony Downs deu nome a esse comportamento em 1957, em Uma teoria econômica da democracia. Diante da quantidade e da complexidade de informação necessária para um voto plenamente ponderado, o cidadão comum prefere permanecer racionalmente desinformado e votar em quem sente mais próximo de si. Downs chamou isso de ignorância racional. Estudar cada candidato custa tempo, e um voto sozinho quase nunca decide nada, então o eleitor sensato usa atalhos: o partido, a cara conhecida, a opinião do cunhado, quem aparece na frente na pesquisa. O pai da corrida passou dois anos sem pensar em deputado porque tinha coisa melhor para fazer, e ninguém pode acusá-lo de irracionalidade por isso.
Isso não quer dizer que os 45 dias de campanha sejam inúteis. A campanha faz uma coisa que o eleitor não percebe, mas sente: cria ambiente. Bandeira na esquina, pesquisa no jornal da noite, debate, carreata e o vizinho de adesivo no carro informam ao eleitor distraído quem está no jogo.
A família da mesa ao lado sabe disso melhor do que qualquer marqueteiro: ninguém termina uma corrida por causa dos últimos quinhentos metros, e a linha de chegada é só o lugar onde aparece o resultado de meses de treino, de despertador tocando no escuro, de quilômetros que ninguém aplaudiu e de domingos de descanso trocados pelo asfalto. Com a eleição acontece o mesmo. A campanha que funciona começa na manhã seguinte à última apuração, quando as bandeiras ainda estão sendo recolhidas e ninguém mais está olhando, e continua em todos os dias em que não há câmera, pesquisa nem santinho: na opinião manifestada, na presença repetida na timeline do eleitor até virar costume. É nesse tempo sem plateia que um candidato constrói um personagem que o eleitor reconhece de longe e uma autoridade que ninguém precisa explicar. Quando chega a última semana e o eleitor distraído finalmente levanta os olhos do misto-quente para procurar um nome, ele não escolhe quem pediu mais alto. Escolhe quem já estava lá.








