Enquanto executivos como Dario Amodei, Sam Altman e Elon Musk defendem um ritmo mais controlado para o desenvolvimento da inteligência artificial, Pequim sinaliza que pretende acelerar investimentos, infraestrutura e aplicações da tecnologia

Durante anos, a corrida pela inteligência artificial foi apresentada como uma disputa para descobrir quem conseguiria construir os sistemas mais poderosos. Agora, uma mudança importante apareceu dentro do próprio setor: alguns dos executivos responsáveis pelo desenvolvimento desses sistemas passaram a defender que o ritmo seja reduzido.

O movimento ganhou força em setembro de 2026, quando Dario Amodei, CEO da Anthropic, publicou um texto defendendo que o avanço dos modelos de IA deveria ser acompanhado por mecanismos capazes de avaliar seus riscos. A proposta recebeu apoio público de Sam Altman, da OpenAI, e Elon Musk, da xAI. O argumento central não é abandonar a inteligência artificial, mas criar mais tempo para testar, avaliar e controlar sistemas que estão ficando cada vez mais capazes.

A discussão, porém, esbarra em uma questão que vai muito além dos laboratórios americanos: o que acontece se apenas um lado desacelerar?

Essa é uma das principais dificuldades de qualquer proposta de pausa ou desaceleração internacional. Se empresas dos Estados Unidos reduzirem o ritmo enquanto empresas chinesas continuarem avançando, a diferença tecnológica entre os dois países pode mudar. O próprio Amodei apontou esse dilema ao discutir a possibilidade de outros países não adotarem a mesma estratégia.

A resposta chinesa

Na China, o discurso oficial tem seguido uma direção diferente.

Em junho, uma reunião do Conselho de Estado chinês defendeu o avanço da inteligência artificial, com investimentos em tecnologias consideradas estratégicas, ampliação da capacidade de computação e aceleração da aplicação comercial de produtos e serviços baseados em IA. Ao mesmo tempo, o governo chinês também destacou a necessidade de manter a segurança da tecnologia e ampliar a cooperação internacional em governança de IA.

Em março, o governo chinês já havia apresentado a expansão da iniciativa “AI Plus”, com incentivo à aplicação de inteligência artificial em diferentes setores da economia. O planejamento para o período de 2026 a 2030 inclui tecnologias como IA multimodal, agentes de inteligência artificial, IA incorporada a máquinas e sistemas de inteligência coletiva.

A diferença, portanto, não está exatamente em uma China que ignora os riscos e um Ocidente preocupado com eles. O debate chinês também inclui segurança, ética e governança. A diferença está principalmente na prioridade dada ao ritmo de desenvolvimento.

Em julho, Pequim lançou ainda um plano de cooperação internacional em inteligência artificial envolvendo dados, capacidade computacional, ecossistemas de código aberto, formação de profissionais, padrões, governança e ética.

Por que a China não quer simplesmente apertar o botão de pausa?

Existe uma razão econômica e estratégica.

A inteligência artificial passou a ser tratada pela China como uma tecnologia fundamental para a indústria e para a competitividade internacional. Em agosto, autoridades chinesas afirmaram que a IA já estava amplamente integrada à cadeia industrial do país, incluindo pesquisa, desenvolvimento, produção, manufatura, controle de qualidade e operações.

Segundo dados divulgados pelo governo chinês, as indústrias centrais relacionadas à IA movimentaram mais de 1,2 trilhão de yuans em 2025, enquanto o país já tinha mais de 6.200 empresas de inteligência artificial.

Nesse cenário, uma desaceleração ampla não seria apenas uma decisão tecnológica. Teria consequências econômicas e estratégicas.

É justamente por isso que pesquisadores e veículos chineses reagiram com ceticismo às propostas vindas dos Estados Unidos. Uma das críticas apresentadas é que uma desaceleração poderia beneficiar empresas que já estão na liderança e dificultar a aproximação de concorrentes.

A imprensa estatal chinesa chegou a classificar a proposta de desaceleração defendida por Amodei como uma estratégia de contenção tecnológica contra a China. Essa é uma interpretação atribuída ao veículo estatal Global Times, e não um fato independente sobre a intenção dos executivos americanos.

Segurança ou corrida tecnológica?

É aqui que a discussão fica mais complexa.

De um lado, executivos de empresas que desenvolvem IA estão dizendo que a capacidade desses sistemas está avançando rapidamente e que é necessário criar mecanismos independentes de avaliação e segurança. Sam Altman declarou apoio à ideia de avaliações externas dos modelos, enquanto Amodei defende uma coordenação maior entre empresas e governos.

De outro, empresas como Meta e Nvidia não aderiram à ideia de simplesmente reduzir o ritmo de desenvolvimento. Jensen Huang, da Nvidia, tem defendido a continuidade do avanço da tecnologia, enquanto Mark Zuckerberg, da Meta, é favorável a uma abordagem mais orientada pelo mercado.

Portanto, nem mesmo o setor de tecnologia fala com uma única voz.

A disputa não é apenas entre Estados Unidos e China. Existe também uma disputa dentro do próprio Vale do Silício sobre qual deve ser o limite entre inovação, segurança, competição e regulação.

A China quer acelerar, mas também fala em controle

A ideia de que Pequim pretende simplesmente “acelerar a IA sem regras” também não corresponde ao que aparece nos documentos oficiais.

As políticas chinesas recentes mencionam segurança, padrões, ética, governança e cooperação internacional. Em 2026, o país anunciou iniciativas para desenvolver padrões de inteligência artificial e ampliar avaliações éticas em diferentes cidades.

A estratégia chinesa parece combinar duas frentes: desenvolver rapidamente a tecnologia e, ao mesmo tempo, criar mecanismos para administrá-la.

Essa diferença é importante porque muda a pergunta.

Não se trata apenas de saber se a China é contra ou a favor de uma pausa.

A questão é: qual nível de risco um país está disposto a aceitar para não ficar para trás em uma tecnologia considerada estratégica?

E quem conseguir controlar a próxima geração?

A inteligência artificial deixou de ser apenas uma disputa entre empresas.

Ela envolve chips, data centers, energia, pesquisadores, infraestrutura, indústria, defesa, comércio e influência internacional.

Quanto mais os modelos de IA passam a executar tarefas complexas, maior se torna a importância de quem controla os recursos necessários para treiná-los e colocá-los em funcionamento.

É por isso que uma eventual desaceleração coordenada seria muito mais difícil do que parece.

Para funcionar, dependeria de empresas e governos de diferentes países adotarem regras semelhantes ao mesmo tempo. Caso contrário, existe o risco de que a corrida apenas mude de participante.

O cenário atual mostra justamente esse paradoxo.

Quanto mais os líderes do setor alertam sobre os riscos de acelerar demais, maior também parece ser a pressão para não permitir que um concorrente avance sozinho.

A China, pelo menos no momento, não demonstra intenção de abandonar essa corrida. Seus documentos oficiais apontam para expansão da infraestrutura, aumento da capacidade computacional, aplicações comerciais e desenvolvimento de novas gerações de inteligência artificial. Ao mesmo tempo, Pequim afirma que segurança e governança devem acompanhar esse processo.

A discussão, portanto, não é simplesmente entre “acelerar” e “parar”.

O verdadeiro desafio está em descobrir como avançar sem transformar a competição tecnológica em uma corrida na qual a velocidade seja mais importante do que a capacidade de controlar o que está sendo criado.

E, nesse ponto, Estados Unidos e China parecem estar diante da mesma pergunta — embora estejam escolhendo caminhos diferentes para respondê-la.