Grupo Gennius, controlador do Habib’s, Ragazzo e Tendall Grill, busca reorganizar as finanças após acumular mais de R$ 265 milhões em dívidas; lojas continuam funcionando normalmente

O Grupo Gennius, controlador das redes Habib’s, Ragazzo e Tendall Grill, entrou em recuperação judicial com uma dívida declarada de R$ 265,2 milhões. O pedido foi apresentado à Justiça de São Paulo na segunda-feira (24) e teve o processamento aceito no dia seguinte.

A decisão foi tomada pela 1ª Vara de Falências e Recuperações Judiciais de São Paulo, que nomeou a KPMG como administradora judicial do processo. A medida abre uma nova etapa para que o grupo tente reorganizar suas obrigações financeiras e manter suas atividades.

Apesar da recuperação judicial, o grupo informou que as operações continuam funcionando normalmente.

Por que o Habib’s entrou em recuperação judicial?

De acordo com as informações apresentadas no processo, a situação financeira do Grupo Gennius foi resultado de uma combinação de fatores acumulados nos últimos anos.

Entre os motivos apontados estão os efeitos econômicos da pandemia de Covid-19, as mudanças nos hábitos de consumo, o crescimento das plataformas de delivery e o cenário de juros elevados.

O avanço do delivery também modificou a dinâmica do setor de alimentação. Para redes estruturadas em torno de grandes operações físicas, a mudança no comportamento do consumidor trouxe novos desafios e exigiu adaptação dos modelos de negócio.

Ao mesmo tempo, juros elevados aumentam o custo do crédito e tornam mais difícil para empresas altamente endividadas renegociarem ou refinanciarem seus compromissos.

Dívida ultrapassa R$ 265 milhões

O valor declarado no processo é de R$ 265.207.959,83.

Segundo informações divulgadas sobre a ação, o passivo inclui aproximadamente R$ 22,3 milhões em dívidas trabalhistas e mais de R$ 241,7 milhões em créditos de outras categorias.

O processo reúne uma estrutura empresarial ampla ligada às operações do grupo. Entre os negócios estão 119 lojas próprias do Habib’s, 26 unidades do Ragazzo e seis churrascarias Tendall, além de outras empresas e holdings relacionadas ao conglomerado.

Recuperação judicial não significa falência

A entrada em recuperação judicial não significa que o Habib’s tenha declarado falência ou que as lojas serão fechadas.

O mecanismo permite que uma empresa em dificuldade financeira apresente um plano para reorganizar suas dívidas e negociar com os credores, buscando preservar a atividade empresarial.

No caso do Grupo Gennius, a companhia afirma que o objetivo é justamente realizar uma reestruturação financeira e preservar a continuidade dos negócios.

A Justiça concedeu ao grupo prazo de 60 dias para apresentar o plano de recuperação judicial.

O que a recuperação judicial revela sobre o ambiente empresarial brasileiro?

O caso do Habib’s acontece em um momento de maior pressão financeira para empresas de diferentes setores.

O aumento do custo do crédito é especialmente relevante para companhias que precisam financiar capital de giro, renegociar dívidas ou realizar investimentos. Quando os juros permanecem elevados, o custo financeiro pode pressionar o caixa e reduzir a capacidade de investimento.

Além disso, empresas de alimentação enfrentam outros desafios: custos de operação, mão de obra, aluguel, logística, insumos e mudanças na maneira como o consumidor decide onde e como consumir.

Isso não significa que todas as dificuldades empresariais sejam causadas exclusivamente pela economia. Gestão, estratégia, estrutura de dívida e capacidade de adaptação também são fatores importantes.

No caso do Grupo Gennius, a própria empresa apontou uma combinação de fatores para explicar a crise financeira.

Por que empresas grandes também entram em recuperação judicial?

O tamanho de uma empresa não elimina o risco financeiro.

Uma grande rede pode ter centenas de unidades, milhares de funcionários, contratos com fornecedores, imóveis, equipamentos, operações logísticas e uma estrutura administrativa complexa.

Isso significa que uma pequena mudança na margem de lucro ou no custo financeiro pode representar milhões de reais quando multiplicada por uma operação de grande escala.

Além disso, empresas tradicionais precisam acompanhar mudanças rápidas no comportamento do consumidor.

No setor de alimentação, por exemplo, o crescimento do delivery alterou a relação entre restaurantes e clientes. A presença física continua relevante, mas passou a dividir espaço com aplicativos, promoções digitais, marketplaces e novos modelos de consumo.

O que acontece agora com o Habib’s?

Com o processamento da recuperação judicial, começa uma etapa de negociação entre o grupo e seus credores.

A KPMG foi nomeada administradora judicial e terá papel no acompanhamento do processo. O Grupo Gennius deverá apresentar seu plano de recuperação dentro do prazo estabelecido pela Justiça.

O futuro da empresa dependerá, entre outros fatores, da capacidade de reorganizar suas dívidas, preservar o fluxo de caixa e adaptar sua operação ao atual cenário do setor.

Por enquanto, as lojas do Habib’s, Ragazzo e demais operações do grupo continuam funcionando.

Um alerta para o setor de alimentação

A recuperação judicial do Grupo Gennius chama atenção justamente pelo tamanho e pela tradição das marcas envolvidas.

O Habib’s construiu uma presença nacional ao longo de décadas e se tornou uma das marcas mais reconhecidas do segmento de alimentação rápida no país.

O caso mostra que marcas consolidadas também podem enfrentar dificuldades quando diferentes pressões financeiras e mudanças de mercado acontecem ao mesmo tempo.

Mais do que representar o fim de uma empresa, a recuperação judicial será, para o Grupo Gennius, uma tentativa de reorganizar a estrutura financeira e encontrar um caminho para continuar operando.

A partir de agora, o mercado acompanha a apresentação do plano de recuperação e as negociações com os credores para saber qual será o futuro do grupo.