O governo dos Estados Unidos aumentou a pressão sobre o Brasil em relação ao combate ao crime organizado e ao tráfico internacional de drogas. Em documento enviado ao Congresso americano em 15 de setembro de 2026, o presidente Donald Trump afirmou que o governo brasileiro falhou no enfrentamento ao Primeiro Comando da Capital (PCC) e ao Comando Vermelho (CV), duas das principais organizações criminosas brasileiras. Ao mesmo tempo, o relatório destacou positivamente ações adotadas por outros governos da América Latina no combate ao narcotráfico.
O documento faz parte da determinação presidencial anual dos Estados Unidos sobre os principais países produtores ou utilizados como rotas para o tráfico internacional de drogas. Apesar da crítica direta ao governo brasileiro, o Brasil não foi incluído na lista oficial de 23 países classificados por Washington como grandes produtores ou importantes países de trânsito de drogas. O país também não aparece entre os quatro governos apontados no documento como aqueles que, na avaliação americana, não fizeram esforços suficientes para cumprir compromissos internacionais de combate ao narcotráfico.
A principal crítica direcionada ao Brasil está relacionada ao PCC e ao Comando Vermelho. Segundo o texto divulgado pela Casa Branca, as duas organizações criminosas teriam transformado o Brasil em um ponto central do fluxo global de cocaína. Trump afirmou que o governo brasileiro não teria enfrentado adequadamente essas organizações e defendeu a adoção urgente de medidas mais firmes contra os grupos.
A manifestação representa uma mudança em relação ao documento publicado pelos Estados Unidos no ano anterior. Em 2025, o Brasil não havia sido citado nominalmente nesse contexto. A nova menção ocorre depois de uma série de medidas adotadas pelo governo americano contra organizações criminosas brasileiras.
Em maio de 2026, o secretário de Estado americano, Marco Rubio, classificou o PCC e o Comando Vermelho como organizações terroristas globais especialmente designadas. A decisão foi posteriormente formalizada e passou a integrar a estratégia americana de combate a organizações criminosas transnacionais. O governo brasileiro, por sua vez, mantém posição contrária à classificação das duas facções como organizações terroristas e defende que o enfrentamento aos grupos seja realizado pelas instituições brasileiras, com cooperação internacional quando necessário.
O governo brasileiro reagiu às críticas e afirmou que o relatório não considera adequadamente as ações realizadas no país contra as organizações criminosas. Em nota divulgada pelo Ministério da Justiça e Segurança Pública, o governo citou a Lei Antifacção, sancionada em março de 2026, além de operações realizadas pelas forças federais e das medidas previstas no Programa Brasil contra o Crime Organizado, lançado em maio.
Segundo o Ministério da Justiça, foram realizadas dezenas de milhares de operações de combate ao crime organizado, resultando em prejuízos financeiros para grupos criminosos. A pasta também afirmou que o Brasil vem trabalhando no fortalecimento das investigações, no combate ao tráfico de armas, no sistema prisional e no enfrentamento econômico das organizações criminosas.
Outro ponto destacado pelo governo brasileiro foi a cooperação proposta entre Brasil e Estados Unidos. Segundo o Ministério da Justiça, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva apresentou, durante visita a Washington em maio, uma proposta envolvendo combate à lavagem de dinheiro, compartilhamento de informações de inteligência e enfrentamento ao tráfico de armas. De acordo com a pasta, o governo brasileiro ainda aguardava uma resposta americana sobre a proposta.
Enquanto o Brasil foi alvo de críticas, o relatório também apresentou avaliações positivas sobre governos de outros países latino-americanos. Entre os exemplos citados estão Argentina, Bolívia, Colômbia e Equador, além de referências positivas à cooperação envolvendo a Venezuela. O documento destacou medidas consideradas relevantes por Washington para reduzir o tráfico de drogas e combater organizações criminosas.
A Venezuela recebeu uma atenção particular. Segundo o documento, o país deixou de figurar entre os governos apontados pelos Estados Unidos como aqueles que falharam comprovadamente no cumprimento de compromissos de combate ao narcotráfico. Trump atribuiu essa mudança ao aumento da cooperação com o governo interino venezuelano e mencionou ações contra organizações criminosas que, segundo Washington, produziram resultados.
A Colômbia também aparece entre os países destacados positivamente. O relatório afirma que os colombianos fizeram uma escolha considerada pelo governo americano como importante para a segurança regional e apresenta o novo governo colombiano como um possível parceiro dos Estados Unidos nessa área. Argentina, Bolívia e outros governos latino-americanos também receberam referências favoráveis relacionadas às políticas de combate ao tráfico de drogas.
Já entre os países classificados formalmente pelos Estados Unidos como grandes produtores ou rotas de drogas estão México, Colômbia, Venezuela, Peru, Bolívia e Equador. A classificação, porém, não significa necessariamente que Washington considere os governos desses países omissos no combate às drogas. O próprio documento diferencia a condição de país utilizado por redes de narcotráfico da avaliação sobre os esforços realizados por cada governo.
Essa distinção é importante no caso brasileiro. Embora Trump tenha feito uma crítica direta à atuação do governo brasileiro, o Brasil não foi colocado na relação dos países considerados grandes produtores ou rotas de drogas e tampouco foi incluído entre os governos formalmente classificados como aqueles que não cumpriram suas obrigações internacionais de combate ao narcotráfico. A crítica aparece, portanto, em uma parte narrativa específica do documento.
A publicação também ocorre em um momento de maior tensão entre Brasília e Washington em torno da segurança pública e das organizações criminosas brasileiras. A classificação do PCC e do Comando Vermelho pelos Estados Unidos e as divergências sobre a forma de enfrentar essas organizações passaram a fazer parte da relação diplomática entre os dois países.
No Brasil, integrantes do Ministério da Justiça e da Polícia Federal contestaram a avaliação americana e apontaram que existem operações permanentes contra organizações criminosas, além de investimentos e novas medidas legais voltadas ao enfrentamento das facções. Entre as ações recentes citadas pelas autoridades brasileiras estão operações simultâneas da Polícia Federal em diferentes estados contra crimes relacionados ao tráfico de drogas e armas, lavagem de dinheiro e homicídios.
O relatório de Trump, portanto, estabelece uma diferença clara entre o tratamento dado ao Brasil e as avaliações feitas sobre outros governos da região. Enquanto Brasília foi nominalmente criticada pela atuação diante do PCC e do Comando Vermelho, países como Argentina, Bolívia e Colômbia receberam referências positivas, e a Venezuela teve sua avaliação modificada em razão, segundo o documento americano, do aumento da cooperação contra organizações criminosas.
A repercussão do documento deve manter o combate ao crime organizado no centro das discussões entre Brasil e Estados Unidos. Para o governo brasileiro, o enfrentamento das facções envolve ações nacionais de inteligência, investigação, legislação, controle financeiro e cooperação internacional. Para Washington, a atuação das organizações brasileiras ultrapassa as fronteiras do país e passou a ser tratada como uma questão de segurança internacional.
A divergência apresentada no relatório não altera o fato de que o Brasil, formalmente, não foi incluído na lista americana dos principais países produtores ou rotas de drogas nem entre os governos considerados como tendo falhado no cumprimento de compromissos internacionais antidrogas. A crítica específica ao PCC e ao Comando Vermelho, entretanto, coloca o país em uma posição de destaque no documento de 2026 e sinaliza uma cobrança mais direta do governo Trump sobre a política brasileira de combate às organizações criminosas.








