Criança agitada não é, automaticamente, uma criança que precisa de risperidona. Embora o medicamento tenha indicações específicas e possa ser importante em determinados quadros, seu uso em crianças pequenas exige avaliação criteriosa, acompanhamento médico e uma compreensão ampla do desenvolvimento infantil.
O tema ganha relevância diante de situações em que medicamentos antipsicóticos acabam sendo utilizados para lidar com comportamentos como agitação, birras intensas, dificuldades escolares, alterações do sono ou agressividade, sem que as possíveis causas desses comportamentos sejam devidamente investigadas.
Para aprofundar essa discussão, Fernanda Lago foi convidada a falar sobre os riscos da banalização da medicação e sobre a importância de olhar para a criança além do comportamento apresentado.
Quando o comportamento é um sinal
Na primeira infância, crises, impulsividade, dificuldades de comunicação, alterações do sono, seletividade alimentar, comportamentos repetitivos e dificuldades de interação podem ter diferentes origens.
Esses sinais podem estar relacionados a condições do neurodesenvolvimento, dificuldades de comunicação, alterações sensoriais, privação de sono, excesso de telas, rotina desorganizada, sofrimento emocional ou dificuldades de adaptação no ambiente familiar e escolar.
Por isso, antes de simplesmente tentar controlar determinado comportamento, é necessário compreender o que está por trás dele.
Uma criança que entra em crise porque não consegue comunicar o que sente pode precisar, por exemplo, de estratégias de comunicação e suporte adequado. Da mesma forma, quando comportamentos agressivos aparecem em situações de sobrecarga sensorial, identificar os gatilhos pode ser fundamental para definir a melhor intervenção.
O risco de transformar a criança no problema
O ambiente escolar também merece atenção. Falta de previsibilidade, excesso de estímulos, ausência de adaptações ou estratégias inadequadas de manejo podem contribuir para o surgimento ou agravamento de crises.
Nesse contexto, transformar a medicação na principal resposta pode fazer com que a criança seja vista apenas como alguém que precisa ser "controlado", em vez de receber suporte de acordo com suas necessidades.
É justamente nesse ponto que a participação de profissionais especializados se torna importante: entender o comportamento, investigar suas possíveis causas e orientar família e escola sobre as estratégias mais adequadas.
Risperidona não é uma medicação inofensiva
A risperidona é um antipsicótico atípico e possui indicações médicas específicas. Em determinados casos, pode ser utilizada para controlar sintomas graves, como irritabilidade intensa, agressividade ou comportamentos de risco.
Por outro lado, seu uso pode estar associado a efeitos adversos como sonolência, aumento do apetite, ganho de peso, alterações metabólicas, aumento da prolactina e efeitos motores.
Em crianças pequenas, isso reforça a necessidade de acompanhamento profissional e monitoramento adequado durante o tratamento.
A prescrição também deve partir de objetivos claros: qual sintoma está sendo tratado? Qual é a gravidade do quadro? Quais alternativas foram avaliadas? Quando será feita a reavaliação? Quais efeitos adversos precisam ser observados?
O debate não significa demonizar a risperidona.
Existem crianças que realmente podem se beneficiar do medicamento. Em determinados casos de transtorno do espectro autista, por exemplo, irritabilidade grave, agressividade intensa, autoagressão ou comportamentos que ofereçam risco podem justificar seu uso dentro de um plano terapêutico individualizado.
Nessas situações, a medicação pode contribuir para reduzir o sofrimento e os comportamentos de risco, possibilitando que a criança tenha melhores condições de participar de terapias e de sua rotina.
O ponto fundamental é que medicamento não deve substituir a investigação e as demais formas de intervenção.
O tratamento começa antes do comprimido
Uma avaliação adequada pode envolver histórico detalhado, observação clínica e investigação de aspectos como desenvolvimento, comunicação, interação social, sono, alimentação, sensorialidade, rotina e comportamento.
Também podem ser consideradas informações fornecidas pela família e pela escola, além da necessidade de terapias, adaptações ambientais e orientação aos responsáveis.
A participação da família e da escola pode ser decisiva para compreender os gatilhos e desenvolver estratégias que ajudem a criança a lidar com suas dificuldades.
A discussão sobre o uso de risperidona em crianças pequenas também reforça a importância de ampliar o diálogo entre profissionais, famílias e instituições de ensino.
Fernanda Lago foi convidada para abordar o assunto e contribuir com sua experiência profissional sobre os cuidados necessários diante de alterações comportamentais na infância.
A proposta é discutir não apenas quando uma medicação pode ser necessária, mas também os riscos de utilizá-la como resposta automática para comportamentos que precisam, antes de tudo, ser compreendidos.
A questão não é ser contra ou a favor da risperidona. É entender que cada criança apresenta uma realidade diferente e que decisões relacionadas ao uso de medicamentos precisam ser individualizadas e acompanhadas por profissionais habilitados.
Antes de perguntar qual medicamento pode deixar uma criança mais calma, é necessário perguntar o que está causando aquele comportamento e o que ela está tentando comunicar.
Comportamento infantil não deve ser tratado apenas como um incômodo a ser eliminado. É também um sinal que precisa ser compreendido.








