A campanha de Romeu Zema à Presidência da República ganhou um dos discursos mais duros da corrida eleitoral ao colocar El Salvador como referência para o combate ao crime organizado no Brasil. O candidato do Novo defende uma mudança radical na forma como o Estado enfrenta as grandes facções criminosas: em vez de tratá-las apenas como organizações criminosas, quer enquadrá-las como organizações terroristas.


A proposta não surgiu por acaso. Zema já esteve em El Salvador para conhecer de perto a política de segurança do presidente Nayib Bukele e passou a apresentar o país centro-americano como uma espécie de laboratório de uma nova estratégia contra o crime. Em declarações anteriores, chegou a elogiar o modelo salvadorenho como uma das experiências mais bem-sucedidas de combate à criminalidade.


Agora, a promessa ganhou contornos ainda mais duros. Durante a convenção que oficializou sua candidatura, Zema afirmou que, se eleito, pretende “enquadrar todas as organizações e facções criminosas como terroristas”. A declaração coloca PCC, Comando Vermelho e outras estruturas criminosas no centro de uma proposta que pretende ampliar a capacidade de repressão do Estado e mudar o tratamento jurídico dado às facções.


“Vão mofar por pelo menos 25 anos”

O discurso de Zema não termina na classificação das facções. O candidato também anunciou a construção de um chamado “superpresídio”, preferencialmente em uma área remota da Amazônia, destinado às lideranças do crime organizado.


A ideia é retirar os chefes das facções dos grandes centros e impedir que continuem comandando atividades criminosas de dentro das penitenciárias. Na convenção, Zema afirmou que esses líderes “vão mofar” por pelo menos 25 anos na unidade de segurança máxima.

A inspiração salvadorenha, entretanto, traz junto uma discussão que vai muito além da segurança pública. O governo de Nayib Bukele ganhou popularidade ao reduzir drasticamente os índices de homicídios e realizar uma gigantesca ofensiva contra gangues, mas o modelo também é alvo de críticas internacionais por prisões arbitrárias, problemas no devido processo legal e denúncias de violações de direitos humanos. Em agosto de 2026, reportagens apontam que milhares de pessoas detidas durante o regime de exceção passaram a enfrentar julgamentos coletivos questionados por advogados e organizações de direitos humanos.


Segurança ou “Estado de exceção”?

É justamente nesse ponto que a proposta de Zema promete incendiar o debate eleitoral. Seus defensores enxergam no modelo de Bukele uma demonstração de que o Estado pode recuperar territórios dominados pelo crime quando decide agir com força. Seus críticos, por outro lado, questionam se uma estratégia construída sob medidas excepcionais poderia ser transplantada para o Brasil sem produzir conflitos com garantias constitucionais e direitos individuais.


O próprio Zema enquadra a questão como uma disputa pela soberania brasileira. Em encontro com embaixadores, o então pré-candidato afirmou que o Brasil estaria “normalizando essa guerra civil” e defendeu uma política inspirada em El Salvador.


A discussão, portanto, deixou de ser apenas sobre aumentar penas ou colocar mais policiais nas ruas. Zema está propondo uma mudança de paradigma: tratar o crime organizado como uma ameaça de natureza terrorista e responder a ele com uma estrutura estatal muito mais agressiva.


Se a proposta avançar, a eleição de 2026 poderá transformar uma pergunta em um dos principais temas da campanha: o Brasil precisa de um modelo à la Bukele para enfrentar as facções — ou importar a estratégia de El Salvador significaria também importar os riscos e as controvérsias daquele modelo?


Para Zema, a resposta parece estar definida. O candidato quer um Brasil mais duro contra o crime, com facções classificadas como terroristas, líderes isolados e uma política de segurança inspirada diretamente na experiência salvadorenha. A questão agora é saber se o eleitor brasileiro também estará disposto a seguir esse caminho.