Em 1892, o Barão de Drummond mantinha um zoológico em Vila Isabel e enfrentava um problema de caixa. Para aumentar a bilheteria, criou um sorteio: cada ingresso trazia a figura de um animal e quem tivesse o bicho sorteado do dia recebia vinte vezes o valor pago.

O zoológico fechou há muito tempo. O jogo, não. Proibido e pontual, ele atravessou décadas, transformando cada animal em um conjunto de números e estabelecendo uma regra que nenhum cartório precisou registrar: vale o que está escrito. Até hoje, o apostador muitas vezes não conhece o banqueiro, nunca viu seu rosto e, ainda assim, entrega o dinheiro e deposita sua confiança em um pequeno papel.

No último domingo, lembrei do barão ao observar o comportamento do eleitor fluminense diante de outro número: o 22. Quem deu significado político a ele foi Jair Bolsonaro, em 2022. A leitura mais imediata do resultado é que a direita venceu. Venceu, de fato, e não há razão para fugir dessa constatação. Mas há algo além da disputa ideológica: o número parece ter adquirido uma força própria.

Comecemos pelo governo. Na pesquisa Prefab Future divulgada no sábado, véspera da eleição, 43% dos eleitores declaravam não saber quem era Douglas Ruas, candidato do PL. No dia seguinte, Ruas alcançou 49,27% dos votos, contra 42,76% de Eduardo Paes, eleito quatro vezes prefeito da capital e provavelmente um dos nomes mais conhecidos da política fluminense.

Mais de quatro em cada dez eleitores não reconheciam Douglas Ruas. Ainda assim, não precisavam necessariamente conhecer seu rosto para votar nele. Bastava reconhecer o caminho até a tecla 2.

Na disputa para deputado estadual, o número chegou ainda mais perto de dispensar o candidato. O eleitor que digita apenas 22 e confirma, sem escolher nominalmente um candidato, produz o chamado voto de legenda, destinado ao partido. A legenda do PL, sem rosto, sem biografia e sem jingle próprio, recebeu mais votos do que os 135.271 obtidos por Elika Takimoto, deputada mais votada do PT no estado.

Um número de dois dígitos, portanto, superou a candidata mais votada do principal partido adversário.

O 22 também produziu uma situação curiosa dentro da própria direita, especialmente na disputa pelo Senado. Na pesquisa divulgada no sábado, a ordem era Benedita da Silva, Carlos Jordy e Carlos Portinho. Nas urnas, porém, Portinho terminou em primeiro, com 26,77%; Jordy ficou em segundo, com 24,56%; e Benedita apareceu em terceiro, com 20,22%.

A ultrapassagem dos dois candidatos do PL sobre Benedita pode ser explicada pelo voto ideológico. Portinho, entretanto, passar Jordy exige outra reflexão. Os dois pertenciam ao mesmo partido, defendiam posições semelhantes e dividiram palanques durante a campanha. A diferença estava também no número: Portinho era 222; Jordy, 221.

Não há como provar que o número determinou a ordem final — e desconfio de qualquer pessoa que diga ter essa prova. Mas estamos falando de uma diferença de aproximadamente 350 mil votos entre dois candidatos que disputavam o mesmo eleitorado.

Nos anos 1950, o francês Roland Barthes escreveu um pequeno ensaio chamado “Fotogenia eleitoral”, publicado no livro Mitologias. Ao analisar a fotografia dos candidatos nos materiais de campanha, Barthes observava como a imagem podia vender um modo de ser no lugar de uma proposta. O eleitor, nesse processo, acabaria escolhendo alguém que parecesse representar aquilo que ele próprio reconhecia em si.

A urna brasileira parece ter invertido essa lógica. Nela, o rosto do candidato só aparece depois que o eleitor digita o número.

Barthes estudava semiótica, um nome sofisticado para uma ideia relativamente simples: a maneira como um sinal pode passar a representar uma coisa inteira. Ninguém precisa ler a palavra “pare” em uma placa para entender o que deve fazer. O sinal basta. O 22 parece ter chegado a esse estágio.

O Barão de Drummond criou um jogo para tentar salvar seu zoológico. O jogo sobreviveu ao zoológico, ao barão e às inúmeras tentativas de eliminá-lo. No jogo do bicho, aliás, o grupo 22 corresponde ao tigre.

O apostador não vê o tigre. Muitas vezes, também não conhece quem está por trás da aposta. Ainda assim, joga. Porque, no fim, vale o que está escrito.

No domingo, no Rio de Janeiro, uma parte expressiva do eleitorado parece ter feito algo parecido. Antes de perguntar pelo nome, pela história ou pelo rosto, reconheceu o número.

E, naquela urna, o 22 já não parecia apenas um número.